Uma Confissão, por Liev Tolstói




"Os conceitos de Deus infinito, de espírito divino, de um elo entre as ações das pessoas e Deus, o conceito de bem moral e de mal são conceitos elaborados na vastidão histórica da vida humana, oculta de nossos olhos, são conceitos sem os quais não existiria nem vida nem eu mesmo, e eu, tendo rejeitado todo esse trabalho de toda a humanidade, quero fazer tudo sozinho, de novo, e por minha própria conta"


Eis um livro maravilhoso! Eu já tinha lido "O Reino de Deus está em vós", no qual Tolstói defende um total pacifismo e critica as religiões institucionalizadas. Em "Uma Confissão" ele já começa a fazer isso, mas nesse fala mais de sua própria história. 

Seus pais o educaram na Igreja Ortodoxa, que ele seguiu na infância e adolescência. Aos 17 anos, nega a fé. Vai para a guerra, se horroriza com a crueldade. Vive uma vida dissoluta, torna-se escritor. Mais tarde, casa e tem filhos. Torna-se um escritor famoso, bastante rico, tem uma esposa e filhos amorosos. Porém, perto dos cinquenta anos, começa a não ver sentido na vida e ter sentimentos suicidas.

Ele declara todo seu drama no livro. Fala que alguns dos maiores pensadores, como Sócrates, Buda e Salomão concluíram que a vida é uma miséria e que a morte traria a verdadeira alegria. Porém Tolstói, com toda a sua inteligência, os interpreta muito mal. A morte é amada porque é nela que se encontra Deus, mas nenhum deles defende o suicídio. Eles defendem que se aprenda a morrer e que possamos viver a vida morrendo para nós mesmos e vivendo pelos outros. 

Na religião fala-se muito de buscar a morte, mas com isso se quer dizer morrer para nossos desejos egoístas e renascer em Deus, para assim viver pelas pessoas que amamos. É claro que Tolstói, com todo seu pessimismo habitual e suas leituras de Schopenhauer, os interpreta da pior forma possível, como se a melhor solução de uma vida aparentemente sem sentido fosse tirar a própria vida.

Outra questão é que Tolstói vê nos estudos e nas leituras algo vazio de significado e inveja os analfabetos, que com sua simplicidade podem desfrutar da fé em Deus. Eu entendo o que ele quis dizer, mas discordo profundamente dessa posição. Assim como a imaginação não é um mal em si, apenas quando mal utilizada, a razão não é ruim por si mesma. Através da razão podemos amadurecer a fé, pela leitura de vários livros espirituais. A encíclica "Fides et Ratio" de João Paulo II fala sobre isso: fé e razão não são contrárias.

Não sei o que Tolstói andou lendo que parecia não achar resposta em parte alguma. Ele se angustiava com o próprio ceticismo. Descobriu que só há vida em Deus e passou a acreditar em Deus, mas enfrentou imensa dificuldade para aceitar o cristianismo ortodoxo. Ele não acreditava em milagres ou que a eucaristia era a presença real de Cristo. Porém, é verdade que essas coisas que desafiam nossa razão servem para nos ensinar a humildade.

Ele descobriu que Deus é a verdade na fé das pessoas pobres, que trabalhavam arduamente no campo. E passou a desprezar trabalhos intelectuais.

Eu acredito que Tolstói faz uma admirável defesa do pacifismo em sua outra obra. No entanto, eu não concordo com a maior parte das razões com as quais ele ataca a Igreja ortodoxa e outras instituições religiosas. Para ele, o fato de cada igreja se considerar detentora da verdade provava que elas eram falsas. Porém eu respondo: o fato de Tolstói se considerar o detentor da verdade em considerá-las falsas, prova então que sua crença que era falsa? É preciso ter muito cuidado com esse tipo de pensamento. 

As igrejas, mesmo que tenham inspiração divina, são instituições humanas e cometem erros. Mesmo assim, eu acredito que elas ainda acertam mais que erram e só por isso vale a pena segui-las. Claro que cada um tem a liberdade de acreditar em Deus sem seguir nenhuma religião ou ritual. Não ter a tradição como guia pode às vezes nos deixar meio perdidos ou sozinhos, mas vai de cada um resolver esse impasse com suas soluções.

De qualquer forma, gostei muito de ler as reflexões de Tolstói. Ele frequentemente me soa muito pessimista e esse seu lado é complicado. Ele também costuma ser dramático, mas muito de seu drama tem verdadeira beleza.


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