Hume em 90 minutos, por Paul Strathern




De Hume já li "Diálogos sobre a Religião Natural" e "Ensaio sobre o entendimento humano". Confesso que gostei mais do primeiro, que eu descrevi em minha resenha como "um livro maravilhoso".

Hume nunca esteve entre meus filósofos favoritos, mas sempre achei divertido seu questionamento sobre causalidade. Como disse Paul Strathern, Berkeley questionou a existência do mundo material e foi motivo de troça, mas Hume explicou a piada e questionou todo o resto. Para Berkeley, o mundo material continuava a existir porque Deus o via o tempo todo mesmo que ninguém olhasse, mas com Hume não sobrou nem mesmo mundo.

Sem causa e efeito, como é possível haver ciência ou mesmo vida? Achamos lógicas as questões colocadas por Hume, mas na prática não vivemos dessa forma. Nós vivemos como se houvesse causa e efeito, mesmo que isso seja não mais que um mero jogo (por conseguinte, o jogo paradigmático da ciência também o seria).

Sou mais da posição de Buda de que tudo deve começar com a questão do sofrimento. Existe o sofrimento humano e é a partir daí que todo o resto deve se seguir. A dor é real. Independente de ser metafisicamente real, ela é real o suficiente (seja dor física ou mental) para que o foco da filosofia possa partir daí, que é geralmente o foco dado pelas religiões.

Deve ser por isso que costumo achar religiões mais interessantes que filosofia. Parece que a religião foca mais diretamente numa solução para o problema do sofrimento humano e num incentivo do relacionamento entre as pessoas. Provavelmente não precisamos de muito mais que isso para viver.

Já a psicologia contemporânea, que foi criada essencialmente fora de um contexto religioso, pode ser válida como uma outra visão para lidar com a questão do sofrimento de uma forma mais objetiva, já que a religião costuma florear demais. Mas eu considero esse floreio como uma parte artística necessária.

Diz Paul Strathern que Hume seria o único filósofo cujas questões permanecem válidas até hoje, já que se costuma ler os gregos como nobre literatura de contos de fadas, a abordagem dos medievais seria antiquada e meio fora da casinha para o paradigma de hoje e muitos dos racionalistas e empiristas modernos costumam soar muito dogmáticos ou loucos.

Segundo me consta, antes de responder Hume é preciso responder Santo Anselmo. Os filósofos costumam ignorar a filosofia medieval e reduzi-la somente a interpretações de Platão e Aristóteles por Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, pegam o bonde andando e depois se perguntam porque será que estão com dificuldade de encaixar as peças, saltando direto da Roma Antiga para Descartes.



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