Marx em 90 minutos, por Paul Strathern




Esse é o décimo livro dessa coleção que estou lendo. Pelo visto ainda vou ler mais que o dobro disso. 90 minutos não é nada, mas já gastei 15 horas nesses livros. Eles estão atrasando minha leitura do Dukes e do Gombrich, mas é por uma boa causa.

Só li dois livros do Marx: "Miséria da Filosofia" e o que ele escreveu com o Engels, "A Ideologia Alemã". Aliás, pra mim o Engels é o cara legal dessa história. Parece o que Ananda foi para Buda.

Sei lá o que penso do Marx. Ele era um cara legal que interpretou o capitalismo que existia na época dele e possíveis soluções. O capitalismo de hoje é bastante diferente daquele da época de Marx. É preciso analisar as circunstâncias históricas, a cultura do país e muitas outras variáveis antes de aplicar a mesma solução para todos os tempos e lugares. 

No sistema de saúde, por exemplo, as necessidades até mesmo de bairros diferentes da mesma cidade são diversas e demandam medidas diferenciadas que devem ser analisadas individualmente. Para isso há o auxílio da comunidade, para descobrir os problemas locais em vez de estabelecer uma solução x que deva ser aplicada igualmente para todas as cidades e estados do país.

Surpreendente que até mesmo Marx reconhece algumas vantagens e valores do sistema feudal que foram perdidos com o advento do capitalismo. O mesmo acontece quando o socialismo se coloca no lugar do capitalismo: algumas coisas se ganham e outras se perdem.

O socialismo (seja o de Marx ou o de qualquer outro pensador, em qualquer forma) não é a verdade absoluta, assim como a esquerda política (seja a extrema esquerda, a moderada, etc) também não são os mocinhos que lutam contra os vilões da direita. O contrário também é verdadeiro. O liberalismo, a direita ou qualquer outra posição política não deve ser interpretada como uma religião autoproclamada como verdadeira e atemporal em suas verdades divinas.

O mundo muda. Isso não significa que não devemos ler pensadores que viveram em outras épocas. Eles têm algo a nos dizer, mas devemos nos lembrar que o mundo em que eles viveram era um pouco diferente. Eles tiveram experiências de vida diferentes e isso influencia na visão que eles nos apresentam.

Claro que não dá para ser totalmente relativista o tempo todo. Tolstói, por exemplo, me convenceu de que realizar reformas graduais e não violentas é melhor do que fazer revoluções. Gandhi também seguiu esse exemplo. Já Mandela argumentou que a situação da África do Sul era diferente dos Estados Unidos de Martin Luther King e por isso era preciso tomar medidas mais drásticas. Ainda assim, ele sempre evitava a violência quando possível.

Quanto a isso, não me julgo capaz de opinar, mas sei qual é a opinião de Tolstói: para alguém que acredita em Deus, vale a pena dar a vida pelos ideais da não violência, mas se alguém acredita que tudo que temos é esse mundo, pode ser que se busque alguma resistência. Em Canudos não houve reação, creio que pelo ideal religioso.

Mas todas essas questões são muito complexas. Nesse momento, só tenho uma vaga noção de tudo aquilo que as envolve. Como Rousseau colocou, será que é possível conciliar igualdade e liberdade? Quando se tem liberdade, naturalmente tentamos favorecer primeiro nossa família e amigos em detrimento dos demais e isso pode gerar desigualdade. E quando não se tem liberdade temos igualdade porque somos forçados a essa igualdade.

Será que isso só pode se transformar com mudanças graduais na maneira que somos educados? Não educados só para competir e ganhar dinheiro, mas com outros valores. Mas por mais que alguém queira ajudar as pessoas menos favorecidas, não acho errado priorizar a família e pessoas próximas, tentando conciliar ambos de alguma maneira. Um aparente paradoxo, mas talvez não totalmente insolúvel.



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