Romancista como vocação, por Haruki Murakami




Em dezembro de 2015 resolvi ler a trilogia IQ84 do Murakami, sei lá porquê. Diziam que era um livro bom e eu queria conferir por mim mesma. E, de fato, era bom, mas eu senti que o autor era capaz de muito mais. Por isso, resolvi ler outros livros dele, pois eu estava determinada a encontrar o potencial do autor completamente realizado.

Por isso, no início de 2016 acabei lendo todos os romances do autor. Eu não tinha nenhuma intenção de fazer isso, pois eu senti que nem gostava tanto assim dele. Só que por algum motivo continuei lendo. Eu achava que ele dava títulos muito bons para suas obras e bolava premissas ótimas. O começo prometia e eu sempre chegava ao fim do livro satisfeita. Mas parecia que eu nunca terminava um livro dele com aquela sensação de: "Uau, que foda!", que eu buscava e que sentia que ele era capaz de me dar.

O mais próximo que cheguei disso foi com a trilogia do Rato (que na verdade são quatro livros). O meu livro favorito do Murakami é "Caçando Carneiros" e nele acho que ele me deu o que eu queria.

Quando vi esse novo livro (Romancista como vocação) nas livrarias eu pensei: "Ah, não, eu não vou ler outro, já li livros demais desse cara!" e fui embora. Quando fui outro dia na livraria vi de novo o livrinho. E pensei: "Merda, é tão curto que leio num dia, então vou acabar comprando cedo ou tarde. Raios, vamos lá" e comprei. E li.

Murakami é o tipo do autor que eu já li mais do que eu queria ter lido e continuo lendo sei lá porquê. Deve ser porque sei que embora ele não me dê aquela sensação de "que livro maravilhoso" ele também nunca me desaponta. Sei que sempre vou terminar uma obra dele com o sentimento de "Legal, curti" e talvez isso seja o bastante, já que a maior parte dos livros nem essa sensação me dá.

"Então por que você lê tanto?" alguém poderia me perguntar. E eu respondo: "Porque se de dez livros que leio acho nove ruins e um bom, vale a pena ler os nove ruins para achar a agulha perdida no palheiro".

Talvez eu esteja exagerando. A maior parte dos livros que leio são neutros ou ao menos "legais", me acrescentam algo. Acho que continuo a ler porque me acostumei e não achei outro hobby melhor ainda, além de escrever. 

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Após essa introdução, comentarei sobre o livro "Romancista como vocação".

Eu gosto de ler o Murakami falando sobre algo, como seu livro "Do que eu falo quando eu falo de corrida" que achei ótimo.

Nesse novo, eu gosto da sinceridade e da simplicidade do autor. Ele é um autor maduro e também parece bastante maduro como pessoa, pelo que escreve. Eu me identifiquei com algumas coisas.

Concordo que acima de tudo é importante o escritor se divertir escrevendo e escrever para si mesmo. Eu também faço isso. Claro que se pode pensar num leitor imaginário, mas em geral se nos divertimos escrevendo passamos essa sensação para quem vai ler.

Murakami repete muitas vezes que não gosta tanto de seus primeiros livros, mas eles são meus preferidos! Claro que eu também gosto muito dos novos e pude perceber muito amadurecimento em seu estilo nos mais recentes. Mas tem algo nos antigos que me prende, apesar dos supostos defeitos de marinheiro de primeira viagem.

Pinball, por exemplo, é sensacional. Cara, a trilogia do Rato é não somente boa, mas muito boa. Eu praticamente esqueci das partes dela que não gosto, pois ficou na minha cabeça algumas cenas memoráveis que guardei.

Eu mesma não gosto tanto quando me dizem que o livro preferido de alguém é um antigo que escrevi, pois para quem escreve é importante amadurecer na escrita e fazer com que os livros atuais sejam melhores que os anteriores. Só que é difícil competir contra si mesmo!

Murakami diz que já leu autores que gosta muito e pensou: "OK, eu não consigo fazer isso, mas quero achar a minha voz". Eu penso o mesmo. Já li livros e autores admiráveis e eu penso: "Eu não conseguiria fazer isso" ou "Eu não quero fazer isso, mas admiro esse estilo" e quero escrever como me sinto bem fazendo.

Por exemplo, eu admiro livros previamente planejados em que tudo se encaixa no final, mas eu não gosto de escrever assim porque eu gosto de ser espontânea. Daria trabalho planejar tudo de antemão e perderia a magia da surpresa para o autor, que também gosta de se surpreender. Planejar tudo antes tira a diversão do autor, mas diverte mais o leitor. E como escrevo sobretudo para mim, quero me divertir como nunca.


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