O Pavilhão Dourado, por Yukio Mishima




"Volta-te para o interior e para o exterior e mata imediatamente o que encontrares! Matarás Buda, se Buda encontrares, matarás teus ancestrais, se teus ancestrais encontrares, matarás os santos, se os santos, se os santos encontrares, matarás teus pais, se teus pais encontrares, matarás teus parentes, se teus parentes encontrares. Só assim alcançarás a salvação. Nada te prenderá e serás livre!"

Rinzairoku
  

Aposto que o autor ficaria imensamente satisfeito com os sentimentos que tive ao longo dessa leitura. No começo eu estava um pouco frustrada e até braba com tudo: com o personagem principal, com os demais personagens, com as situações como um todo. Meu Deus, que vontade de jogar o livro longe, hahaha!

Depois aparece um personagem extraordinário e malucão. O protagonista é gago e o malucão tem pernas tortas. Esse amigo do protagonista tem umas teorias muito interessantes, do tipo: a imagem de campos verdes pode gerar violência, mas ver cadáveres pode te tornar uma pessoa melhor.

Eu interpretaria dessa forma: quando só somos expostos a coisas bonitas e escondemos as coisas feias da vida, podemos fantasiar que as coisas feias não são assim tão terríveis e apoiar guerras e atos de violência. Mas se vivemos a guerra de perto, se vemos os cadáveres, as pessoas com membros decepados, etc, isso desperta nossa humanidade, nós queremos lutar a todo custo para impedir a violência.

O autor criou um protagonista realmente estranho, meio psicopata. Eu li esse livro por indicação e não esperava muito dele, mas o autor nos deu um final brilhante.

No começo eu estava impaciente porque a história parava o tempo todo para reflexões filosóficas e sentimentais, mas aparentemente isso tinha um sentido.  

É um livro com uma reflexão sobre a beleza. Paisagens verdes e pacíficas geram raiva nos personagens e coisas feias, cinzentas e fogo geram paz. Isso provavelmente tem a ver com a natureza humana, que busca não somente a paz, mas sentir a vida pela dor para entender seu significado.

Chamou-me a atenção esse livro porque o protagonista está treinando para ser um monge budista num templo rinzai zen. O livro está recheado de koans e de filosofia zen. 

Se você tiver paciência com o autor, recomendo a leitura. É bem diferente e o Mishima é realmente um monstro para escrever. Ele brinca com as palavras com naturalidade, como se o romance fosse uma poesia. Não é exatamente uma narrativa que prende e flui o tempo todo, mas é realmente bela. Um tipo de beleza que foge de padrões. 


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