Martin Luther King, por Alain Foix




"Todos os seus discursos e todas as suas pregações escreviam-se nessa dimensão, que unia incessantemente o real a um pensamento crítico e construtivo. Um pensamento que era ouvido por intermédio do canto e da poesia. Era esse, sem dúvida, um dos motivos do sucesso que faziam. Ele era, sim, pragmático, mas também idealista, sempre idealista. Não dera o grande salto para o materialismo. Tinha acompanhado Marx e o pensamento marxista, mas abandonara-o pelo caminho, pois tinha a firme convicção de que não era possível abandonar completamente a parte do sagrado e da espiritualidade que faz do homem um ser maior do que sua própria pessoa"

Essa ideia acima eu compartilho profundamente: o salto para o materialismo pode fazer com que nos percamos. Devemos manter os pés na terra, mas os olhos voltados para o céu, de modo que o coração se preencha de um e de outro para jamais tornar-se rígido demais ou sonhador demais. 

Trecho de carta:

"Imagino que saiba que meu pensamento econômico é muito mais socialista que capitalista. Não sou, no entanto, tão contrário ao capitalismo que não enxergue seus méritos relativos. Ele surgiu de motivos nobres e de uma visão elevada, cujo objetivo inicial era se opor aos monopólios comerciais detidos pela nobreza. Tal como a maior parte dos sistemas humanos, porém, foi vítima daquilo mesmo que vinha combater"

É parecido com o que eu penso: um dia os capitalistas também lutaram por direitos e parte dessa conquista ainda se mantém. Ideias socialistas podem ser um passo adiante, contanto que sigam o caminho da não violência de Tolstói, Gandhi e Martin Luther King.

"Se dois estudantes, disse-lhes Nehru, estiverem competindo para entrar numa universidade ou no colégio, sendo um deles um intocável e o outro, de uma casta superior, a escola é obrigada a aceitar o primeiro. 'Mas isso não é discriminação?', exclamou Reddick. 'Pode ser, retorquiu Nehru, mas é a nossa maneira de reparar séculos de injustiça infligida a esse povo"

Quando King viajou para a Índia teve contato com as ideias da "affirmative action", controversas até hoje. Eu mesma defendo cotas de muitos tipos (para negros, índios, estudantes de escolas públicas, etc). Afinal, nós geralmente odiamos o que não conhecemos. Quando estudamos junto com negros eles já não são "o outro" e o diferente, mas pessoas extraordinárias e dignas não diferentes de nós. 

Trecho de uma carta de King (Carta da prisão de Birmingham: 1963):

"Devo fazer a vocês, meus irmãos cristãos e judeus, duas confissões sinceras. Antes de mais nada, devo confessar que sofri, nesses últimos anos, profunda decepção em relação aos brancos moderados. Quase cheguei à lamentável conclusão de que o grande obstáculo imposto aos negros em luta por sua liberdade não é o membro do conselho dos cidadãos brancos nem o da Ku Klux Klan, e sim o branco moderado, mais apegado à 'ordem' do que à 'justiça'; que prefere uma paz negativa advinda de uma ausência de tensão a uma paz positiva advinda de uma vitória da justiça; que está sempre a repetir: 'Concordo com vocês quanto aos objetivos, mas não posso aprovar seus métodos de ação direta'; que julga poder fixar, como bom paternalista, um cronograma para a libertação de outro homem; que cultiva o mito do 'tempo-que-trabalha-a-favor-de-vocês' e está sempre aconselhando o negro a esperar 'um momento mais oportuno'. A compreensão superficial das pessoas de boa vontade é mais frustrante do que a total incompreensão das pessoas mal-intencionadas. Uma aceitação morna é mais irritante do que uma recusa pura e simples... Eu esperava que os brancos moderados compreendessem que a lei e a ordem têm por objeto a instauração da justiça; quando faltam com a justiça, transformam-se em perigosas barragens erigidas contra o progresso social"

Importante salientar que King se refere aqui à luta pela desobediência civil através da não violência. 

Havia um sujeito chamado Malcolm X, que defendia os direitos dos negros através de ações violentas e parecia achar que seu inimigo era "o branco" diferente do que King pensava, que estendeu sua luta para incluir os pobres e outros grupos que sofrem injustiças. 

Malcolm X se converteu ao islamismo e quando foi fazer o Hajj na Caaba em Meca se emocionou ao perceber pessoas de todas as cores e etnias juntas. Foi somente aí que ele entendeu o que King defendia. Infelizmente, como muitos grandes homens tais como o próprio King e Gandhi, ele foi assassinado.

É comum que negros se convertam ao islamismo por considerarem o cristianismo uma religião do dominador branco. Como eu já tinha mencionado no meu post sobre islamismo, uma parte enorme da África é muçulmana. Até hoje um dos motivos de cristãos se converterem ao islamismo é porque consideram essa religião como possuidora de menos preconceito contra negros.

Mas vale lembrar que existiram vários santos negros famosos no cristianismo, como um dos meus favoritos: São Martinho de Porres, o santo do Peru! A biografia dele é uma das mais emocionantes que eu já li, mas também mostra que houve sim preconceitos contra negros na história do cristianismo, embora muitos grupos cristãos tenham assumido a liderança na luta contra a escravidão mais tarde.

Eu considero a religião uma força poderosa de transformação social e política. Ela, assim como uma faca que pode ser usada para matar alguém ou cortar alimentos, pode ser usada tanto como instrumento de dominação como de libertação. Basta acordarmos para seu gigantesco potencial e em vez de criticar a faca prestar atenção nos homens que já a carregaram para transformar o mundo, tais como Martin Luther King e Gandhi.


Comentários

  1. Muito lindo seu texto, parabéns!
    Aqui, tem um video do Muhammad Ali falando justamente sobre essa questão do racismo e de como ele se converteu ao islã, e vai de encontro ao que você já disse:
    https://www.youtube.com/watch?v=e5Gc0r45xMA

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    1. Brigada! Gostei tanto desse vídeo que compartilhei no Facebook :D

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  2. Aproveitando o gancho sobre racismo e religião, e o fato de que você esta louca pra defender uma teoria polêmica vou tentar contribuir hehehe, você já ouviu falar de um grupo religioso denominado de hebreu-israelita? Basicamente, eles defendem que o povo afro-americano, juntamente com alguns outros povos são os verdadeiros descendentes do Ysrael histórico-bíblico. Tinha um site de onde eu li as teorias, era tudo organizado texto por texto, mas infelizmente o site 'morreu' e pesquisando achei alguns sites que reproduzem alguns textos de lá, olha, minha opnião, a teoria é bastante interessante, os textos que interpretam as passagens biblicas são bem legais, é claro, tem umas forçações de barra como querer explicar a raiz etimológica (sempre quis dizer isso eeuhehe) da palavra 'judeu' e outras coisas, mas o que tange a interpretação de algumas passagem é bem interesante, chato que tem que pesquisar no arquivo desses blogs, dá uma olhada:
    http://www.hebreunegro.com.br/
    http://hebreu-israelita.blogspot.com.br/
    http://yahshurun.blogspot.com.br/

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    1. Nossa, não conhecia nada sobre isso. Amei! Muito bons os sites também! Vou fuçar! *-*

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